Papai Noel conquista os Marcianos



























14/02/2004 08:15
3 horas da manhã. Laboratório. Acabei de voltar da night. Não estou com sono, então resolvi passar aqui antes de ir pra casa.

Saí com David, Shiva e simpatizantes. Bar-boate latina. Muita mulher bonita. Muita mulher feia. Muita gente. Música muito alta e de gosto duvidoso. No começo tudo bem, rindo e falando besteira. David pra variar começa a beber e a dar em cima de todas as meninas que cruzam seu caminho. Tenho que admirar a seriedade dele em pegar alguém.

Shiva e simpatizantes resolvem ir embora. David e eu não. Estava de apoio moral pra ele. No começo o flerte até que estava engraçado. Depois maçante, pra em seguida tornar-se insuportável. E David depois de bêbado fica agressivo, fala pra gente se separar porque ele acha que eu fico na aba dele, e que ele já tem dificuldades suficientes em abordar as meninas, e que se nós formos juntos elas vão invariavelmente me preferir, afinal sou tímido e brasileiro (!). Tou cagando, não estou afim de pegar ninguém, estou lá só pela farra. Mas ele tá bêbado, beleza, vou deixar o cara na dele e ir pro andar de cima.

Raiva. Porque eu estou ali? Em volta tá cheio de gente. A gostosa do meu lado acha que só porque me deixa de pau duro pode me tratar feito merda, quando tudo o que eu queria saber eram as horas. Ódio das latinas, que acham que só porque sabem rebolar os homens vão cair em cima. Ódio dos homens, que caem em cima. Ódio das americanas que sabem rebolar, e por isso se acham latinas. Ódio da bartender por ser muito gostosa, saber disso e deixar bem claro que sabe que é, que sabe que você sabe que ela sabe que é, e que mesmo assim (ou por isso mesmo) ainda vai sair com uma gorjeta melhor do que a da colega. Ódio do bartender por ser mais forte do que eu. Ódio do dono do bar por ter contratado os dois. Ódio dos latinos que acham que porque sabem rebolar são o rei da cocada preta. Ódio dos latinos que só faltam latir se vc se aproxima de alguma mulher no grupo deles, nem que seja pra pedir licença pra passar. Ódio dos pretos e dos latinos por dividirem o posto de machos calientes e exóticos, por serem estereótipos de si mesmos, e ódio do David, por ser o estereótipo do americano supostamente aberto e que basta beber pra começar a falar merda a respeito dos outros. Ódio das barbies dançando com os pretos como se fosse normal por aqui, quando na verdade é só pra fazer tipo. Ódio de saber que todo mundo ali sabe disso. Ódio de saber que todo o processo é consciente, e quem nem se enganar eles tentam. Ódio da cerveja a 5 dólares. Ódio de estar malvestido. Ódio de me incomodar com isso, quando tem um Sikh de turbante e barba bebendo água no bar super na dele. Ódio de estar tanto barulho que não consigo conversar com ninguém. Ódio das mulheres com decotes ousados que reclamam dos caras dando em cima, quando puseram o decote justamente pra isso. Ódio dos caras que acham que se a mulher tá com decote é porque tá querendo. Ódio dos caras que dão em cima de todas as mulheres que passam. Ódio das mulheres que ficam com eles. Ódio das mulheres que olham pra mim, olham pra mim e não falam comigo. Ódio das mulheres em geral, que assumem que os homens é que tem que chegar. Ódio da lógica simplista das razões evolucionárias pra este comportamento. Ódio de todo mundo que vai dizer que a razão é cultural. Ódio do DJ por tocar Technotronic seguido de C&C Music Factory. Ódio de invejar o Masaya por estar trabalhando no departamento sexta a noite. Ódio de saber que ele se acha o máximo por estar trabalhando sexta a noite, quando poderia muito bem trabalhar de manhã, em vez de dormir o dia todo por que trabalhou a noite toda. Ódio de como isso me lembra de mim mesmo. Ódio da minha preguiça. Ódio da minha namorada, que está na Alemanha. Ódio de mim, que estou aqui. Ódio do Oceano Atlântico, por ter muita água. Ódio das minhas finanças. Ódio da cerveja a cinco dólares. Muito ódio da cerveja a cinco dólares. Ódio dos 45 reais que eu tomei de cerveja. Muito ódio do DJ, que está abusando do Gipsy Kings. Ódio da bartender, por ser realmente muito gostosa. Ódio da latinidad. Ódio das próteses de silicone. Ódio das gordas dançando alegremente tentando disfarçar o profundo mal estar com o próprio corpo fingindo que ele não existe. Ódio dos tímidos por serem tímidos. Ódio dos tímidos por fingirem estarem a vontade com a própria timidez. Ódio dos marombeiros com músculos e egos inchados. Ódio de saber que 90% das pessoas dali estão com medo. Ódio de saber que os outros 10%, embora mais felizes, mas são provavelmente uns idiotas. Ódio de mim por saber que vou tocar uma punheta pensando numa (ou mais) das mulheres que estavam na boate antes de dormir. Ódio dos Ursinhos Carinhosos, provavelmente a idéia mais idiota que alguém já teve. Ódio de todas as vezes que trepei sem camisinha. Ódio de todas as vezes que magoei alguém. Ódio dos medíocres, que dão espaço pros 171s da vida. Ódio dos que não são medíocres, mas que toleram os 171s justamente por que isso os legitima a serem 171s eles próprios. Ódio dos anões do orçamento, do juiz Nicolau, dos que tacaram fogo no Galdino e da classe média carioca. Ódio de ser tão parecido com o Thiago que quando estou com ele tenho que me transformar só pra deixar bem claro que não sou parecido com ele. Ódio da vez que quase deixei meu irmão se afogar na piscina e de todas as vezes em que eu senti que ele teve realmente medo de mim. Ódio de todas as vezes que discordei só por discordar, e das vezes que não discordei quando realmente acreditava que precisava. Ódio da minha avó, que morreu sem que eu pudesse vê-la. Ódio de mim, por não tê-la visitado mais vezes antes de ir pra França. Ódio de todas as vezes que fui covarde. Ódio de ler facilmente as pessoas, mas não acreditar nisso. Ódio de ser mais desconfiado do que pobre quando recebe esmola grande. Ódio dos dois árabes que que resolveram engrossar pra cima de mim em Paris, me tomando por um francesinho mimado enquanto eles eram da "banlieu", e por isso "marginalizados", quando provavelmente tinham mais dinheiro do que eu. Ódio de não ter quebrado a cara deles. Ódio dos meus amigos que não atualizam seus blogs e não deixam comentários no meu. Ódio de não saber se sou médium, epiléptico ou pajé (ou os três). Ódio da Ellen por ser tão mais foda do que eu. E de saber que ela não vai dar pra mim. Ódio do Ivan por ser tão tranquilo na vida. Ódio de ainda não falar alemão. Ódio do zumbido irritante do laboratório, que começa exatamente às 22:30 da noite e termina exatamente às 6:30 da manhã. Ódio da guardinha da estação de metrô multando um cara só porque ele estava fumando, quando a estação era aberta, não tinha placa de probido fumar, eram quase três da manhã e só tinham 4 pessoas na plataforma. Ódio do cara, por estar sendo um puta dum escroto pra cima da guardinha, que só estava fazendo o trabalho dela. Ódio de concordar com ele. Ódio de todos os malentendidos do mundo. Ódio de você, caro leitor. Ódio do dilema do prisioneiro. Ódio de saber que lá fora tem muita gente com ódio de verdade, não essa minha raivinha infantilóide, estilizada e pequena. Ódio do ginásio, que já está fechado, quando tudo o que eu queria agora era nadar até não aguentar mais. Ódio de ter medo da minha ex-orientadora de mestrado. Ódio da vulgaridade absoluta deste texto, e da inutilidade destes bytes no cyberespaço (seja lá o que isso signifique). Ódio de saber que vou reler esta merda antes de publicar. Ódio de não saber se ornintorrincos dariam bons animais de estimação. Ódio das vezes que me faltou tesão, no que quer que seja.
enviada por dalazal






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)